Boris Johnson e o SUS

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Artigo de Francisco Balestrin, presidente do Sindicato de Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (SindHosp) e presidente do Conselho de Administração do Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde (CBEXs):

A partir da China, a Covid-19 chegou à Europa, transformou-se em pandemia e alcançou o Brasil, onde ainda está presente, colocando à prova nossa capacidade de cuidar dos cidadãos em um cenário difícil e desafiador. O “atraso” na chegada do novo coronavírus ao Brasil nos colocou em vantagem, pois poderíamos aprender com os erros alheios. Será que aprendemos?

Boris Johnson, primeiro-ministro britânico, hesitou e errou. Quando os ingleses começaram a sofrer com a disseminação deste vírus, Johnson duvidou do poder devastador do patógeno e acreditou que, quanto mais rápido seus cidadãos se infectassem, mais rápido a população estaria imunizada, retornando às atividades e permitindo o giro da economia.

A estratégia inglesa não se sustentou. Ao receber um estudo científico que cogitava 250 mil mortos por Covid-19 na Inglaterra caso não houvesse uma intervenção mais vigorosa, Johnson se rendeu à ciência e mudou suas ações. Apoiou o distanciamento social, deu suporte ao sistema nacional de saúde e colocou o país em uma nova rota de combate à pandemia.

Assim como o Brasil, a Inglaterra tem um sistema de saúde universal e gratuito. Mas por que o sistema inglês é tão vangloriado, enquanto temos apenas críticas a nós mesmos?

Criado em 1988 e vencendo inúmeras batalhas, o SUS ainda não consegue suportar toda a demanda, mas foi capaz de apresentar eficácia em muitos setores como o de vacinação, câncer, transplantes e vigilância sanitária, entre outros. E, ainda assim, temos todas as fragilidades expostas diariamente sem reconhecimento das conquistas.

Boris Johnson mudou de ideia quando se viu infectado e foi encaminhado para um hospital da rede pública, onde permaneceu uma semana em tratamento. Venceu a Covid-19 e, assim, angariou mais uma vitória à saúde pública inglesa. E aqui está uma das principais diferenças entre o NHS (“National Health Service”) e o SUS: quando os influenciadores ingleses precisam de atendimento médico, eles usam a saúde pública; por aqui, quando nossos governantes buscam atendimento, acessam diretamente a rede privada em hospitais de primeira linha, buscando essas ilhas de excelência. A mudança brusca de direção da Inglaterra no enfrentamento da pandemia fez com que o país ovacionasse ainda mais o atendimento universal e gratuito proposto pelo NHS.

Nossa saúde suplementar é muito bem estruturada e é indispensável para o país. A rede pública só funciona com o suporte da rede privada e precisamos entender —e enxergar— que a luta é por um único sistema que envolva público e privado para o melhor atendimento populacional. Porém, quando as figuras mais reconhecidas da nação evitam as instituições públicas, fomenta-se ainda mais a percepção equivocada de que o gratuito é ruim em sua integralidade.

Não podemos mais discriminar o SUS, que precisa de fortalecimento, de recursos financeiros, de apoio político e, acima de tudo, de união entre todos os “players” dessa complexa cadeia. O momento é tenso: o SUS está sob pressão da pandemia, por um lado, e ainda terá que acolher os 327 mil usuários que perderam seus planos de saúde, de março a julho deste ano, por conta do desemprego. O sistema enfrenta ainda o aumento da demanda pela retomada dos atendimentos eletivos, que foram adiados para liberar leitos e evitar ida a hospitais. Foram 388 mil cirurgias não urgentes a menos no SUS de março a junho.

Para piorar, somam-se as graves consequências da reforma tributária como foi apresentada pelo governo. Criando mais imposto aos hospitais e serviços de saúde privados, ela obrigará mais usuários dos planos de saúde a migrarem para o SUS. A carga ficará para o SUS. E a conta para os cofres públicos. É o governo dando tiro no próprio pé.

Boris Johnson tinha razão. É hora de fazermos o Brasil vencer também. Identificar nossos deslizes, investir em mudanças e melhorias, reconhecer nossas vitórias e unificar nossos objetivos.”

 

FONTE ORIGINAL DO ARTIGO: Folha de S. Paulo

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