Coronavírus renova orgulho de britânicos do serviço público de saúde

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Do lado de fora de sua casa, no sul de Londres, Gill Cronin bate num pote de metal com uma colher de pau enquanto uma moto passa, com a buzina tocando. Às 20h, a rua explode em um tributo barulhento aos profissionais de saúde da Grã-Bretanha.

— Eles são incríveis e não foram apreciados o suficiente — disse Cronin, uma funcionária de apoio escolar, que lhes agradece dessa maneira toda quinta-feira à noite e descreveu o que o Serviço Nacional de Saúde (NHS na sigla em inglês) significa para ela em uma palavra: —Tudo.

Com sua oferta de assistência médica gratuita a todos, baseada na necessidade, o NHS incorpora qualidades que os britânicos gostam de pensar que representam o melhor de seu país. Agora, com os profissionais de saúde arriscando, e às vezes perdendo, suas vidas enquanto o governo é acusado de lidar de forma errônea com a pandemia de coronavírus, o serviço de saúde — que era considerado antes da crise profundamente bagunçado após 10 anos de austeridade e negligência — se tornou um ponto de apoio para a nação.

Os jogadores de futebol da Premier League organizaram um fundo para doações, o artista de rua Banksy pendurou obras de arte em um hospital em Southampton e um veterano de 100 anos da Segunda Guerra Mundial, capitão Tom Moore, arrecadou mais de 30 milhões de libras (cerca de R$ 217,3 milhões) com uma caminhada de caridade.

— É difícil explicar o quão profundamente enraizado em nossa psique nacional (está o serviço de saúde) — disse Sarah Wollaston, ex-parlamentar que presidiu o Comitê de Saúde da Câmara dos Comuns. — Os políticos mexem com o NHS por sua conta e risco, porque é um tesouro nacional.

Mesmo antes da crise provocada pelo coronavírus, o serviço de saúde, embora lutando, provavelmente ainda era a instituição mais respeitada do Reino Unido. Como fonte de orgulho nacional, ficou em primeiro lugar e significativamente acima da família real em uma pesquisa de 2016.

Na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012, em Londres, o serviço de saúde foi apresentado ao lado de símbolos britânicos como a rainha Elizabeth II e James Bond. E era tão popular em uma era anterior que Nigel Lawson, ex-ministro do Tesouro, o descreveu como “a coisa mais próxima que os ingleses têm de uma religião”.

Em tempos normais, essa veneração tende a confundir os céticos que associam o serviço de saúde britânico a hospitais em ruínas, médicos sobrecarregados de trabalho e longas esperas por cirurgia. Com o envelhecimento da população e a demanda aparentemente ilimitada — mas com recursos extremamente limitados —, o serviço de saúde geralmente luta para lidar com isso.

Quando falha, porém, tendem a ser os políticos e não os médicos que levam a culpa. Portanto, é notável que os políticos tenham tentado nos últimos anos associar-se a esse símbolo nacional sempre que possível, assim como o primeiro-ministro Boris Johnson.

No referendo do Brexit de 2016, o argumento de Boris para deixar a União Europeia se baseou em parte na promessa de desviar o custo da adesão do Reino Unido ao bloco (que ele exagerou) a um NHS sobrecarregado.

Boris agradece ao NHS

Nas últimas semanas, o premier dependeu do serviço de saúde de uma maneira bem diferente — e falou sobre isso também. Ao ser liberado do hospital após o tratamento contra a Covid-19, a doença causada pelo coronavírus, ele agradeceu ao NHS por salvar sua vida, oferecendo uma declaração emocionada na qual elogiou as enfermeiras que estavam ao seu lado.

Algumas semanas depois, quando o filho mais novo de Johnson, Wilfred, nasceu, a primeira visão de mundo da criança foi — como a da maioria dos recém-nascidos no país — o interior de um hospital do NHS. Ele recebeu o nome do meio de Nicolas em homenagem a dois médicos que cuidaram de Boris no mês passado.

Enquanto o governo do primeiro-ministro luta para conter o coronavírus, ele tenta aproveitar a popularidade do serviço de saúde, destacando-o em um slogan que exige o cumprimento de um bloqueio: “Fique em casa. Proteja o NHS. Salve vidas.”

Os chefes dos serviços de saúde participam de entrevistas coletivas ao lado de seus governantes políticos menos confiáveis, e um aplicativo para smartphone para rastrear pessoas infectadas com o coronavírus está sendo desenvolvido pelo serviço de saúde, e não pelo governo, para tranquilizar as pessoas preocupadas com a privacidade.

Afinal, os britânicos confiam no NHS desde 1948, quando foi criado pelo governo trabalhista após a Segunda Guerra Mundial para forjar um país que erradicava os “cinco males”: escassez, doença, miséria, ignorância e ociosidade.

Pago através de impostos gerais e deduções na folha de pagamento, o tratamento é oferecido a todos gratuitamente, com algumas exceções, como odontologia e medicamentos. Com cerca de 1,5 milhão de funcionários, o NHS é o quinto maior empregador do mundo, depois do Departamento de Defesa dos EUA, do Exército Popular de Libertação da China, Walmart e McDonald’s. Como várias dessas organizações, possui um logotipo familiar, neste caso estampado no uniforme de muitas enfermeiras.

— Acho que ninguém se sentou no Ministério da Saúde em 1948 e disse: ‘O que precisamos é de uma marca forte’, mas é isso que conseguimos — disse John Appleby, diretor de pesquisa e economista-chefe da Nuffield Trust, um instituto de pesquisa em saúde em Londres. — Todos nós respeitamos as enfermeiras, que são ‘anjos’ e médicos, que são ‘deuses’. É o mesmo que em muitos outros países, mas aqui está ligado à instituição em que trabalham, e uma das diferenças é a existência do NHS como uma marca.

Os serviços de saúde em outros países europeus tendem a se organizar de forma menos centralizada. Eles obtêm melhores resultados em alguns resultados do que o NHS, mas a maioria dos britânicos costuma comparar seu sistema com o americano.

— Se você não pode pagar pelos cuidados nos EUA, geralmente está em uma situação terrível — disse Wollaston, que acrescentou que, apesar dos gastos mais altos com saúde dos Estados Unidos, “o NHS oferece equidade e melhor retorno para seus investimentos”.

Aqueles que tentaram mudar o NHS acabaram decidindo que não valia a pena. Refletindo sobre seu tempo como ministro conservador do Departamento de Saúde, Kenneth Clarke concluiu que “você pode declarar guerra mais pacificamente do que reformar um sistema de saúde”.

Em vez disso, os governos tendem a restringir seu poder de compra. Após a crise financeira de 2008, as despesas foram reduzidas durante anos de austeridade, deixando o NHS mal preparado para a atual pandemia, lutando para expandir sua capacidade de tratamento intensivo e até para garantir suprimentos de equipamentos básicos, como roupas e máscaras.

Mas em seu momento de crise, a única coisa que não falta ao serviço de saúde do Reino Unido é o apoio de sua população.

— O NHS é quase santo — disse Timothy Garton Ash, professor de estudos europeus na Universidade de Oxford. — Tornou-se a nova Igreja da Inglaterra.

 

FONTE ORIGINAL DA MATÉRIA: O Globo

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