Em manifesto formal, servidores do Inmet contestam diretoria por “mudanças anacrônicas”

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Em manifesto formal raro, servidores de carreira do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) enviaram uma carta aberta à direção do órgão questionando recentes mudanças “improdutivas e anacrônicas” na instituição centenária. O documento, submetido também ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) — ao qual o instituto é vinculado —, explicita o descontentamento dos funcionários com os rumos da gestão.

O posicionamento aberto dos servidores é considerado “muito grave” internamente, ainda mais por ter chegado ao gabinete da ministra Tereza Cristina. Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que a atitude é inédita. Até então, críticas e reclamações eram resolvidas sem serem formalizadas ao alto escalão. Boa parte das divergências sequer chegava à diretoria do órgão.

A avaliação dos servidores é de que o Inmet está sendo esvaziado institucionalmente por meio de medidas como a centralização de trabalhos na sede em Brasília e a atuação de outros órgãos federais na meteorologia, entre eles o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ambos ligados ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTIC).

“Se não bastassem os conflitos que afetam a institucionalidade do Inmet, esses órgãos passaram a roubar a cena, ou seja, a fazer meteorologia, tirando a função institucional do Inmet. A partir do momento que órgãos federais começam a fazer a mesma coisa, fica muito difícil. É muito dinheiro gasto, e o Inmet está sendo esvaziado deliberadamente apenas por questões de visão política”, disse um servidor em condição de anonimato.

A opção pelo atual diretor do órgão, Carlos Edison Carvalho Gomes, também é questionada. Militar, ele construiu sua carreira quase toda na Aeronáutica. O entendimento de alguns servidores é que se trata de um perfil distante das atribuições atinentes ao cargo e que o critério de escolha não foi estritamente técnico.

No ano passado, partiu dele uma recomendação verbal para não citar a interação de fumaças de incêndios com as condições meteorológicas, o que desagradou meteorologistas do órgão.

Gomes convocou uma reunião virtual com o grupo que assinou a carta dias após recebê-la. Apesar da iniciativa, ela não foi vista como produtiva por alguns participantes. Eles alegam que nem todos conseguiram se expressar, atrapalhados em parte por questões técnicas.

Nos corredores do MAPA, circulou a notícia de que existiriam planos para acabar com o Inmet e incorporar seus servidores à estrutura do ministério, motivo pelo qual não seria efetivada uma mudança na diretoria do órgão. Nada foi oficializado até o momento, nem há indícios concretos.

O MAPA nega a hipótese de extinção do instituto. Segundo o ministério, está prevista inclusive uma dotação orçamentária de R$ 6 milhões para aquisição, em parceria com o MCTIC, de um supercomputador a fim de ampliar a previsão climatológica de três para seis meses.

Na carta obtida por ÉPOCA, os servidores ainda citam a desestruturação dos Distritos de Meteorologia (Dismes), bem como o fechamento de Estações Climatológicas em um país continental como o Brasil; a falta de diálogo da direção com os funcionários; a adoção de softwares e mudanças no site que prejudicaram a previsão e a comunicação dos dados; a sobrecarga de trabalho; a falta de transparência em parcerias; e a preocupação com os rumos institucionais.

“Essa centralização da previsão tem como grave consequência acabar com uma das principais qualidades históricas e diferenciadas da previsão do Inmet em seus distritos distribuídos pelo Brasil. Essa característica deveria ser preservada e considerada insubstituível, uma vez que o dinamismo da atmosfera, em todos os dias do ano, se resume em essência na detalhada previsão do tempo elaborada pelos Dismes”, escreveram os servidores.

Procurado via assessoria de imprensa, o diretor do Inmet não se manifestou até a publicação da reportagem.

 

FONTE ORIGINAL DA MATÉRIA: Época

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