“O serviço público precisa avançar muito em questões de raça”

Ações, Mundo, Pelo País, Serviço Público

Engenheira química de formação, Aline Maria dos Santos passou por diversos cargos na administração pública. Já foi professora, militar e, desde 2008, é ouvidora da EPE (Empresa de Pesquisa Energética). Integra o pequeno contingente de mulheres negras que têm cargos no setor público federal. De acordo com estudo elaborado por técnicos de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea (Instituto de Pesquisas Aplicadas), somente 7,5% das funcionárias públicas negras estão no nível federal que, via de regra, tem as melhores faixas de remuneração do funcionalismo público. Apesar de os negros ocuparem 47% dos empregos no setor público do país, essa parcela da população ainda é reduzida às carreiras menos valorizadas. Isso faz com que mulheres negras ocupadas no setor público tenham rendimento médio mensal no trabalho equivalente a apenas 45% daquele auferido por um homem branco.

Santos, no entanto, não se enquadra nas estatísticas. Famosa exceção à regra, apesar de se sentir solitária no seu olhar de mulher negra, ela hoje trabalha em um plano estratégico do comitê interno de diversidade da EPE que ajude a potencializar o objetivo estratégico da empresa, entendendo as vantagens que um ambiente mais diverso pode agregar. Ela também faz parte do Columbia Women’s Leadership Network Brazil, programa da universidade americana Columbia que visa formar redes e preparar mulheres com perfil de gestão e liderança, promovendo um aprendizado prático sobre temas urgentes.

Como ouvidora, ela trabalha na linha de frente no relacionamento com o cidadão, abrindo as portas da instituição para promover a participação e o controle social. Transformando as reclamações, denúncias, sugestões, elogios e solicitações em formas de aperfeiçoar processos e estratégias internas. Entre suas conquistas, está a incorporação das recomendações da Ouvidoria ao relatório da EPE e a estruturação de um procedimento para o tratamento de denúncias.

Aline dos Santos é a sétima entrevistada da série “Gestão Pública”, uma parceria do Nexo com a república.org. O projeto traz, ao longo dos meses, entrevistas em texto na seção “Profissões” — são conversas com profissionais que atuam na administração pública e ajudam a transformar a vida dos brasileiros.

Você já atuou em diversos cargos na administração pública do Brasil como professora, militar e agora como ouvidora da Empresa de Pesquisa Energética. Por que escolheu o serviço público?

ALINE DOS SANTOS Acho que foi o serviço público que me escolheu. Sou filha de uma professora que também era funcionária pública. Desde o início da minha vida acadêmica, sempre estudei em instituições públicas. A consciência do impacto positivo da educação na minha formação, enquanto pessoa e profissional, fez com que eu quisesse fazer parte disso tudo.

Como foi sua trajetória profissional? Por que você deixou as áreas de educação e militar e foi para a EPE? Era oficial militar?

ALINE DOS SANTOS Não era oficial, era sargento da Marinha do Brasil. Isso porque quando entrei tinha apenas o segundo grau técnico, não podendo concorrer a cargo de nível superior. Larguei por entender que já tinha aprendido as lições que a vida de militar podia me ensinar e senti que já estava no momento de alçar novos voos. Ser professora era algo de que gostava muito desde muito jovem. Me formei como professora depois que já estava na Marinha. Exerci essa atividade entre a Marinha e a EPE. Tive que deixar o cargo por incompatibilidade de horários.

O que faz uma ouvidora?

ALINE DOS SANTOS O papel principal da Ouvidoria Pública é a promoção da participação do cidadão na administração pública, facilitando o acesso à instituição e, dessa forma, contribuindo para o controle social e para a melhoria do desempenho e da imagem da empresa. Na prática, trata-se de um sistema direto, legítimo e exclusivo de relacionamento com o cidadão, destinado a receber e dar tratativas às reclamações, denúncias, sugestões, elogios e solicitações. Além disso, a ouvidoria deve ser capaz de mediar conflitos e de buscar soluções efetivas para situações recorrentes.

Internamente, cabe à Ouvidoria ajudar na promoção de um ambiente para mudança de cultura organizacional, por meio da conscientização e sensibilização dos funcionários, nos diversos níveis da instituição, sobre temáticas que reforcem a primazia do interesse público e o compromisso com a responsabilidade social. A atuação da ouvidora deve ser isenta e independente, com caráter fundamentalmente estratégico, por isso ela é diretamente subordinada ao dirigente máximo da empresa.

Como você trabalha para melhorar os processos internos? Algum projeto de melhoria já foi posto em prática?

ALINE DOS SANTOS A Ouvidoria busca trabalhar de forma conjunta com as demais instâncias de governança da empresa, como a Diretoria Executiva, o Gestor de Riscos e Integridade e a Comissão de Ética para a melhoria dos processos internos. A Ouvidoria tem um papel bastante estratégico ao trazer para os gestores e tomadores de decisão o olhar daqueles que estão no lugar de clientes internos e externos. Durante a minha gestão, eu incorporei como processo de melhoria as recomendações da Ouvidoria nos nossos relatórios e estruturei o procedimento para o tratamento de denúncias.

A resposta do ouvidor ao cidadão afeta diretamente a imagem da empresa. Você sente essa responsabilidade? Quais cuidados você toma?

ALINE DOS SANTOS Afeta, com certeza. Sinto que posso colaborar bastante por meio da forma de me comunicar, utilizando uma linguagem cidadã, isto é acessível, cortês e objetiva. Utilizando referências éticas e legais e informando o cidadão sobre direitos e deveres.

Como sua rotina foi afetada pela pandemia? Alguma dessas mudanças vieram para ficar?

ALINE DOS SANTOS A minha rotina foi bruscamente afetada como foi a da maioria das pessoas. Houve necessidade de um grande esforço de adaptação em relação à coexistência no mesmo espaço/tempo de cuidados pessoais, cuidados com a casa, cuidados com os filhos e ainda dar continuidade aos compromissos profissionais. Acredito que muitas coisas vieram para ficar. A quantidade de viagens a trabalho deve diminuir drasticamente, a maioria das capacitações devem migrar para o formato a distância, a estrutura dos escritórios deve ser reduzida e algumas funções devem migrar definitivamente para o home office, entre outras coisas.

Quais as dificuldades de ser mulher em um ambiente predominantemente masculino?

ALINE DOS SANTOS Existem algumas dificuldades, principalmente em relação aos vieses inconscientes, que muitas vezes diminuem a participação feminina nas discussões mais relevantes. Quanto mais técnica for a área, menos mulheres tendem a participar desses processos. No entanto, atualmente a área de Energia conta com um número crescente de profissionais femininas que estão fazendo excelentes trabalhos.

As mulheres são maioria entre os servidores municipais, estaduais e federais, mas ganham 24% menos que os homens. Como você explica essa estatística? Você faz parte dela?

ALINE DOS SANTOS Fica fácil de explicar quando olhamos em primeiro lugar a menor procura das meninas por carreiras mais bem remuneradas, como engenharias. Outra grande dificuldade é quando as mulheres que já estão nas carreiras do setor público não encontram as condições necessárias que permitam o acesso aos cargos mais altos. Para isso, é importante uma mudança de cultura dentro das empresas para o entendimento dos conceitos de diversidade e inclusão, além do conhecimento das vantagens que essas características podem trazer para a empresa e o corpo de funcionários.

Você faz parte do Columbia Women’s Leadership Network no Brasil, programa da universidade americana Columbia que visa formar redes e preparar mulheres com perfil de gestão e liderança, promovendo um aprendizado prático sobre temas urgentes. Você já conseguiu colocar em prática algumas das políticas sociais do programa?

ALINE DOS SANTOS Esse programa foi um divisor de águas na minha vida. De fato, todas saímos dessa vivência com uma visão ampliada sobre questões relevantes e com uma melhor capacidade para contribuir na construção e execução de políticas que impactem efetivamente o setor público. O grande ganho dessa experiência foi a formação de uma rede que contribui para solução de problemas complexos. Esse aprendizado está diretamente ligado às minhas escolhas de atuação profissional.

Além de mulher, você é negra. Com quais desafios relacionados a questões de raça você esbarra na administração pública?

ALINE DOS SANTOS Tenho o privilégio de trabalhar em uma empresa que possui um ótimo clima organizacional, no entanto um dos grandes desafios é lidar com a solidão dentro desse ambiente. A solidão a que me refiro é a do olhar particular da minha diversidade enquanto mulher negra para as diferentes questões que se apresentam.

Em qual dos dois temas (gênero e raça) você acha que a administração pública precisa evoluir mais?

ALINE DOS SANTOS Acho que alguns progressos foram sentidos na administração pública nos últimos anos sobre a questão de gênero, apesar dos retrocessos já apontados como sendo uma das consequências da pandemia. Acredito, no entanto, que tenhamos um longo caminho a percorrer na questão da raça e de suas interseccionalidades.

Na sua experiência como professora, militar e agora ouvidora na EPE, em qual dessas áreas a discussão sobre igualdade de gênero e raça está mais atrasada?

ALINE DOS SANTOS Com certeza no ambiente militar, mesmo assim progressos vêm sendo percebidos principalmente na questão de gênero. Hoje já há oficiais generais mulheres, o que nem era cogitado há alguns anos.

Você está montando o plano estratégico do comitê interno de diversidade da EPE. Pode falar um pouco a respeito? E quais os principais avanços de equipes que tenham representatividade dos diversos estratos sociais?

ALINE DOS SANTOS O nosso planejamento estratégico está em elaboração. Pretendemos finalizá-lo no próximo ano, buscando o necessário alinhamento para potencializar o atingimento dos objetivos estratégicos da empresa.

Qual você acha que foi a sua maior contribuição para o serviço público? Você se sente capaz de promover transformações positivas?

ALINE DOS SANTOS A capacidade de trazer para a minha prática diária a participação e o controle social, colaborando com o direito constitucional do cidadão de receber um serviço público de qualidade. Em relação à segunda pergunta, a minha resposta é: com certeza.

Governos importam?

ALINE DOS SANTOS Sim. Com certeza. Os governos importam para além dos governantes. Devemos cada vez mais olhar os serviços essenciais prestados ao público como “Serviços de Estado”, isto é, serviços cada vez menos sujeitos às mudanças de governantes. Dessa forma, teremos mais consistência e qualidade desses serviços, pois possibilitará ações continuadas de avaliação, monitoramento e também a alocação adequada de recursos investidos nas políticas públicas.

FONTE ORIGINAL DA ENTREVISTA: Nexo

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