“Visto a camisa do SUS. Quero devolver à sociedade a formação pública que recebi”

#servicopublicofazadiferenca, Pelo País, Serviço Público

#nossosus

Patrícia Alvarez Baptista é gerente de Projetos de Diagnósticos Moleculares do Lated (Laboratório de Tecnologia Diagnóstica de Bio-Manguinhos), da Fiocruz. Também conhecido, na instituição, como o laboratório das mulheres por ter uma equipe integralmente feminina, o Lated desenvolveu, em parceria com o Instituto de Biologia Molecular do Pará, o teste nacional para o diagnóstico do novo coronavírus.

A força tarefa formada por cientistas servidores públicos da qual Baptista faz parte conseguiu, em tempo recorde, elaborar um kit de diagnóstico capaz de identificar um fragmento do genoma do novo coronavírus. Nele, amostras são coletadas do nariz e da garganta com um swab triplo, espécie de cotonete, e encaminhadas aos laboratórios para testagem. Ali é feita a extração e purificação do material genético e, em seguida, utiliza-se o kit de detecção — composto por insumos que permitem uma amplificação exponencial do alvo investigado (a covid-19). A técnica utilizada é a PCR em tempo real: os laboratórios preparam os reagentes de acordo com as instruções do kit, adicionam o material extraído ao equipamento e podem acompanhar, na mesma hora, se o material reage, indicando a presença do coronavírus.

O teste desenvolvido pela Fiocruz foi adotado como referência nacional e internacional. Laboratórios públicos dos 26 estados e do Distrito Federal, além de nove países da América Latina, também foram capacitados para usá-lo. Vale lembrar que a testagem maciça é uma linha de atuação essencial para a contenção da doença. Países como a Coreia do Sul, que são exemplos de gestão pública e conseguiram controlar a curva de contaminação, encontraram nos testes uma forma eficaz de evitar o contágio.

Durante a pandemia, a Fiocruz, principal instituição de ciência e tecnologia em saúde no Brasil, saiu de uma produção de 20 mil kits semanais em março para 500 mil kits por semana a partir de junho. O salto permitiu que o SUS aumentasse em 451% a capacidade de testagem para a doença na rede pública de saúde. A média diária de exames RT-PCR, que em março foi de 1.689, passou para 7.624 no mês de maio, de acordo com dados do Ministério da Saúde. O número, apesar de expressivo, ainda está aquém do ideal, mas é uma contribuição fundamental para a elaboração de políticas públicas e estratégias de gestão.

Neste momento crítico, de emergência de saúde pública global, o comprometimento de servidores públicos como Baptista, muitas vezes invisibilizados, faz a diferença. Todos os dias ela encara o medo de ser contaminada pelo novo coronavírus e vai trabalhar.

Patrícia Baptista é a primeira entrevistada da série “Gestão Pública”, uma parceria do Nexo com a república.org. O projeto traz, ao longo dos próximos meses, 18 entrevistas em texto na seção “Profissões” — são conversas com profissionais que atuam na administração pública e ajudam a transformar a vida dos brasileiros.

Gestão Pública


Quem: Patrícia Alvarez Baptista, 46 anos

O quê: Especialista em ciência e tecnologia, produção e inovação em saúde pública e gerente de Projetos de Diagnósticos Moleculares

Onde: No Lated (Laboratório de Tecnologia Diagnóstica de Bio-Manguinhos), da Fiocruz

Na pandemia: Lidera a equipe responsável pela produção dos kits de diagnóstico do novo coronavírus que vêm sendo distribuídos para os testes em todo o Brasil

 

 

Antes da pandemia em que você estava trabalhando na Fiocruz?
PATRÍCIA BAPTISTA O meu trabalho é dinâmico e está sempre vinculado com as necessidades e demandas do Ministério da Saúde. Eu trabalho com desenvolvimento de diagnóstico molecular baseado na tecnologia de PCR em tempo real, que também já foi usada para confirmar casos de zika, dengue (os quatro sorotipos) e chikungunya.

Antes da pandemia, o laboratório estava se dedicando à segunda geração do ensaio NAT brasileiro, uma tecnologia que detecta o vírus do HIV, das hepatites C e B e da malária nas bolsas de sangue destinadas à transfusão. A implementação da tecnologia NAT para triagem em bancos de sangue reduz o risco de transmissão de agentes virais dos doadores.

É curioso que o mesmo conhecimento adquirido e os avanços tecnológicos obtidos com o desenvolvimento e implantação do NAT puderam ser aplicados no desenvolvimento do Kit Molecular ZDC (zika, dengue e chikungunya), desenvolvido e registrado em 2016, e agora para o coronavírus.

Qual é seu trabalho atual na Fiocruz dentro do contexto da pandemia?
PATRÍCIA BAPTISTA Sou responsável pelo desenvolvimento do Diagnóstico Molecular de Sars-CoV-2. Neste contexto, estabeleci a estratégia de desenvolvimento e padronização do produto, claro que com o auxílio da minha equipe, que é simplesmente incrível. Somos na verdade uma família, só mulheres, somos nove no total. Avalio todos os insumos. Cada lote que vai para a produção é feito sob a minha coordenação. Às vezes me acho meio bruxa, bruxa do bem é claro. Nesses dois meses tivemos que fazer milagre para conseguirmos entregar esse quantitativo de reações (kit de diagnóstico). Na pandemia, tive que aumentar a equipe, entraram dois homens, minoria absoluta!

O que mudou na sua rotina desde a confirmação da chegada do coronavírus ao Brasil?
PATRÍCIA BAPTISTA Parece que estou vivendo uma vida diferente, a minha rotina e preocupações mudaram de forma assustadora. Sou o tipo de mãe presente, e, muitas vezes, controladora. Com a pandemia tive que me reinventar como mãe, mulher e profissional.

Com a pandemia, a Nice, um anjo que está comigo há 15 anos e toma conta da casa, entrou em quarentena, e o colégio do meu filho Pedro migrou para aulas online. Eles já tinham uma plataforma digital consolidada e a grade de aulas foi mantida de 7h às 13h. O grande problema é que eu continuo tendo que sair para trabalhar e ele, que não ficava sozinho mesmo tendo 15 anos, agora passa o dia inteiro sem ninguém. Meu coração fica em mil pedaços todos os dias, porque não estou podendo acompanhá-lo e auxiliar nessa transição de modelo de aprendizado. Saio de casa repetindo para mim “ele tem 15 anos, vai sobreviver, tem toda a estrutura que precisa”.

Agora acordo às 6h, faço o café e tiro alguma proteína para descongelar, lavo a louça, faço as camas e ele está na cadeira pronto para a aula digital às 7h. Eu espero o primeiro tempo engrenar, passo umas mil vezes na porta do quarto para tentar participar de algo e tenho que sair para trabalhar. Continuo monitorando por telefone o que ele está fazendo ao longo da tarde, mas em relação à participação na aula eu não tenho como saber. Claro que ele está impaciente com tudo isso, compreensível.

Chego em casa por volta das 18h, e o segundo turno começa. Arrumo a casa, faço jantar e almoço para o dia seguinte, lavo roupa todos os dias como medida de precaução, sem esquecer do banho que tomo quando eu chego, parece que estou imunda e tenho que passar mil vezes o sabonete. Apenas terça e quinta tenho 1 hora e 15 minutos de aula de ballet fitness pelo Zoom, meu único momento!

Só consigo sentar para relaxar depois que lavo a louça do jantar e isso são quase 22h. Pedro vai dormir logo em seguida. Nesse período, comecei a jogar o Sudoku e Words of Wonders. Jogo todos os dias para tentar me manter serena. Isso tem me feito esquecer dos problemas. Vou dormir quase meia noite, os pensamentos sobre trabalho não param, acordo várias vezes no meio da noite preocupada se teremos bons resultados e se daremos conta, o dia amanhece e tudo começa novamente.

O que te move a seguir trabalhando de maneira extenuante e em condições tão adversas?
PATRÍCIA BAPTISTA Estudei em colégio particular, mas fiz a graduação, mestrado e doutorado na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], sou funcionária pública federal, visto a camisa do SUS e o que me move é retornar para a sociedade toda a excelente formação pública que recebi e o salário que recebo todos os meses. Mesmo não tendo aumento ou reajuste anual, mesmo estando com o salário bastante defasado, saio todos os dias cedo para trabalhar e volto com o sentimento de missão cumprida. Tenho orgulho de ser SUS.

Por que você escolheu o serviço público?
PATRÍCIA BAPTISTA Na faculdade de biologia tive que optar entre licenciatura ou bacharelado. Quando iniciei o bacharelado em genética, naturalmente me interessei pela pesquisa e fazer um concurso público significava representar o que eu acreditava, alcançar a possibilidade de falar e ser ouvida sem o interesse pessoal, mas com o espírito público. Essa vontade foi crescendo à medida que me formei e pude perceber que seria necessário ser do quadro oficial para uma atuação mais efetiva. Claro que a estabilidade foi também um fator importante para a escolha, viver de bolsas de pesquisa era muito instável. Mas ser servidor público vai além de estabilidade ou dos benefícios.

E como você enveredou para área científica?
PATRÍCIA BAPTISTA A decisão de fazer uma faculdade de ciências biológicas está relacionada à minha infância, quando passava todas as férias de verão em uma casa em Araruama, Rio de Janeiro. Lá tive a oportunidade de aguçar a curiosidade pelos animais e plantas.

Qual o papel da ciência no combate ao coronavírus?
PATRÍCIA BAPTISTA A ciência é de extrema importância. É um vírus cuja dinâmica viral era desconhecida, o impacto no organismo é variável, parece ser um vírus sistêmico/respiratório, a reinfecção está sendo estudada e essa informação é de alta relevância. A necessidade de desenvolver kits-diagnósticos padronizados e que minimizem os resultados falsos-positivos ou negativos, além do desenvolvimento de vacina, confirma a importância do papel da ciência.

Qual a importância dos kits de testagem como estratégia para gerir essa crise sanitária?
PATRÍCIA BAPTISTA A testagem é importante para permitir o reconhecimento precoce de novos casos, levando assim à prevenção da transmissão. Se os indivíduos que forem diagnosticados como positivos para Sars-CoV-2 forem isolados, isso poderá auxiliar de forma considerável na redução da contaminação e disseminação da doença

Você acha que tem uma responsabilidade maior neste momento?
PATRÍCIA BAPTISTA Acredito que sim, pois estou responsável por definir a estratégia dos modelos dos kits e viabilizar os bulks (formulação dos reagentes e insumos na concentração correta) que farão parte da produção dos kits.

Governos importam?
PATRÍCIA BAPTISTA Claro que os governos importam, mas a sua essência se baseia nos seus dirigentes. O governo deve incentivar o ambiente político, econômico, social… todas as áreas para que o país consiga respirar e seguir. Por eu ser da área da saúde, acredito que deveria ser um dos principais pontos de atenção, pois sem uma população “saudável” não temos nada. No entanto, não podemos esquecer que os governantes são transitórios, mas as políticas públicas deveriam ter continuidade.

Quais os desafios de ser cientista mulher no Brasil hoje?
PATRÍCIA BAPTISTA Acho que o maior desafio é a fase em que a mulher engravida até parte da primeira infância [do filho]. Hoje, aos 46 anos, sem pensar em ter mais filhos, considero que o fato de ser mulher não tenha impacto para mim.

Cientistas homens têm produzido 50% mais durante a pandemia, enquanto a produtividade das mulheres caiu. Como você explica isso? Você se vê nessa estatística?
PATRÍCIA BAPTISTA A verdade é que hoje a maioria esmagadora dos técnicos, tecnologistas, bolsistas de iniciação científica, alunos de mestrado, doutorado ou pós-doutorado são mulheres, mas os pesquisadores principais ainda são homens. Acredito que, à medida que ocorra a renovação baseada no tempo, esse cenário deve mudar. Eles publicam mais, porque são os pesquisadores institucionais dos projetos e laboratórios. De certa forma me vejo nisso. Eu faço parte de uma unidade que desenvolve produtos, e as publicações acontecem como fator secundário, pós-registro.

Você está cansada? Já pensou em desistir?
PATRÍCIA BAPTISTA Desistir não combina comigo. Digo que na vida “caiu levanta, mas bem rápido para não ficar com preguiça”. Estou sem ajuda, além do serviço da casa, tem a loucura que agora é ir ao supermercado. A pior parte é passar roupa, lavo banheiro, cozinha, meu fogão está brilhando, faço comida, varro, passo pano, tiro pó, mas roupa eu não passo. Escolho a roupa de manhã que não precise passar e, se precisar, ficará em uma caixa esperando a Nice. Ando amassada, mas não passo, é uma ciência que não domino. Passo um lado e amassa o outro, isso me tira do sério.

Qual seu maior medo agora?
PATRÍCIA BAPTISTA Sinceramente, que eu ou o meu filho nos infectemos. Preciso estar bem de saúde mental e física para continuar nessa frente.

Quais seus planos para o pós-pandemia?
PATRÍCIA BAPTISTA Hoje não consigo pensar em planos futuros, resolvi que tenho que viver um dia de cada vez. Acho que ficaria angustiada se fizesse planos para uma fase que não temos um fim definido. Com certeza, posso afirmar que continuarei na minha linha de trabalho, sou apaixonada pelo que faço.

 

FONTE ORIGINAL DA ENTREVISTA: Nexo

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