Estônia, referência em digitalização do serviço público, quer atrair startups brasileiras

Ações, Mundo, Serviço Público

Um dos países formados em 1991 com a dissolução da União Soviética, a Estônia quer atrair startups criadas por brasileiros.

O país passa a permitir neste mês que todo o processo de obtenção de cidadania digital, por meio do programa E-residency, seja feito a partir do Brasil.

Isso será possível com a inauguração em São Paulo de um espaço para coleta de informações biométricas e retirada do cartão com chip que, ligado ao computador, dá acesso a serviços do governo estoniano. O anúncio do lançamento acontece nesta quarta (5).

Ao mesmo tempo que a Estônia tem um cenário medieval preservado, com torres e castelos por sua capital, Tallinn, A pequena nação, com cerca de 1,3 milhão de habitantes, é uma das mais desenvolvidas no uso da tecnologia no dia a dia dos cidadãos.

Karen Roosileht, que abriu na Estônia sua empresa, a Tutor.id – Arquivo pessoal

O país é conhecido por receber voto de cidadãos a partir da internet e por ter serviços públicos acessíveis online e com pouca burocracia. Como exemplo, em um único portal do governo, é possível encontrar links com informações sobre tópicos da vida diária, como “Fiquei doente”, “vou ter um filho”, “Vou mudar de casa”, ou “Quero abrir uma empresa”.

Até agora, cerca de 725 brasileiros já se inscreveram para ter a cidadania digital estoniana que, entre seus atrativos, permite registrar uma empresa no país. Para retirar o documento, precisaram viajar até uma embaixada estoniana ou para outro país com ponto de retirada do documento.

O Brasil fica na 30ª posição entre os com mais participantes do programa. No total, são 80 mil cidadãos digitais, com pessoas de países próximos, como Finlândia cerca de (5.900), Rússia (5.500) e Ucrânia (4.000) no topo da lista.

Os brasileiros que possuem a cidadania digital abriram até agora 122 empresas, segundo Lauri Haav, diretor do programa.

Haav diz que, ao ano, os cidadãos digitais criam um quinto das novas empresas estonianas, o que torna a economia de seu país mais diversificada.

Raphael Fassoni, sócio da Estonia Hub, empresa que realiza viagens de brasileiros à Estônia para conhecer o mercado, diz que entre os atrativos para iniciar startups no país europeu, além da desburocratização, estão o modelo de tributação de empresas, a oportunidade de participar de programas de apoio à inovação e possibilidade de chegar a clientes e investidores no continente.

Em relação aos impostos, a atratividade para startups existe porque a tributação, de 20%, acontece na distribuição de lucros aos sócios, não sobre os ganhos da empresa. Para companhias iniciantes, o modelo é favorável porque, com frequência, elas têm prejuízo ou fazem reinvestimentos altos em seus primeiros anos, até conquistar fatia relevante do mercado. “O governo entende que não pode matar a empresa no ninho”, diz Fassoni.

Edilson Osório, sócio da startup OriginalMy, com sede na Estônia – Divulgação

A empresária brasileira Karen Roosileht, 33, iniciou sua relação com a Estônia em 2010, quando entrou para um mestrado na Universidade de Tartu.

Roosileht conta que, antes de se mudar para a Estônia, já se identificava com a cultura do norte da Europa, em que as pessoas são mais reservadas. O avanço tecnológico foi um dos fatores decisivos para ela se decidir pelo país.

“Enquanto na Suécia, a universidade tinha um telefone com resposta automática, na Estônia, havia link no site para conversar com alguém por Skype”, conta. A empresa de chamadas online foi criada na Estônia.

Cinco anos depois, ela decidiu ficar e abrir na Estônia sua empresa, a Tutor.id, plataforma para professores encontrarem alunos e gerenciarem suas aulas.

A maior parte dos clientes e dos 11 funcionários da empresa está no Brasil. Mesmo assim, Roosileht diz que o apoio dado pelo governo estoniano, que pode vir por meio de troca de ideias, sugestões de contatos ou financiamento de viagens para representar o país e apresentar sua startup internacionalmente, faz viver lá valer a pena. “É um país pequeno, em que as coisas acontecem rápido e são mais informais”, diz.

Por outro lado, ela diz haver um desafio maior para conseguir investidores na Europa, na comparação com Estados Unidos e Brasil. “Ainda é um ecossistema mais conservador, em que esperam você mostrar algum lucro antes de investir.”

Mesmo com o desafio, a Tutor.Id levantou R$ 4 milhões com investidores da Dinamarca, Estados Unidos, Colômbia e da própria Estônia, diz.

A empresária ressalva que o clima do país, frio e com pouco sol durante metade do ano, pode ser um desafio para outros empresários brasileiros se mudarem para a Estônia.

Edilson Osório, 42, sócio da OriginalMy, conta ter levado sua empresa, de infraestrutura para assinatura digital, para a Estônia em 2018.

A decisão foi tomada após ele concluir que o ambiente regulatório do país para negócios baseados em blockchain (infraestrutura para registro de informações usada no bitcoin) era pouco amigável no Brasil.

O empresário conta que, para tomar a decisão de para onde deveria levar sua empresa, analisou aspectos tributários, regulatórios e o custo de vida de dezenas de países e concluiu que Estônia seria o mais adequado.

Além disso, o avanço do país em relação a governo digital poderia oferecer aprendizados úteis à empresa, afirma. “Dá uma credibilidade enorme dizer que você tem uma startup de cybersegurança e governo digital na Estônia.”

Após formalizar a empresa no país báltico, Osório ainda tentou seguir trabalhando do Brasil. Logo percebeu que se mudar para a Europa ficaria mais barato do que fazer visitas eventuais ao continente em busca de clientes. Permaneceu em Tallinn. Apesar de estar sozinho no início, diz que se relacionou com empresários de países como Marrocos, Alemanha, Índia e China.

Em dezembro, a esposa de Osório, Miriam Oshiro, sócia na empresa, também se mudou para a Estônia. A empresa tem seis pessoas e só os dois trabalham de lá.

 

FONTE ORIGINAL DA MATÉRIA: Folha de S. Paulo

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